
O
STF (Supremo Tribunal Federal) manteve, nesta quarta-feira (14), por 9
votos a 2, o julgamento sobre a anulação das condenações do
ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no plenário da corte,
composto pelos 11 integrantes do tribunal.
Nove ministros votaram
para rejeitar o pedido da defesa do petista para que o tema fosse
analisado pela Segunda Turma, que é integrada por cinco magistrados e
tem perfil contrário à Lava Jato.
Com isso, o mérito da decisão
do ministro Edson Fachin de invalidar os processos contra Lula que
tiveram origem na 13ª Vara Federal de Curitiba deve ser discutido pelo
plenário a partir desta quinta-feira (15).
Caso o entendimento de Fachin seja mantido, Lula retomará seus direitos políticos e estará apto a disputar as eleições de 2022.
Os
ministros Edson Fachin, Luís Roberto Barroso, Alexandre de Moraes,
Kassio Nunes Marques, Rosa Weber, Dias Toffoli, Cármen Lúcia, Gilmar
Mendes e Luiz Fux votaram para manter o tema no plenário. Ricardo
Lewandowski e Marco Aurélio divergiram.
Fachin foi o primeiro a
defender que não cabe recurso contra sua decisão de levar o processo ao
conjunto da corte. "A afetação [remessa] de feitos ao plenário é
atribuição discricionária do relator", afirmou, mencionando precedentes e
o regimento interno da corte.
Ricardo Lewandowski divergiu, mas
ficou vencido. Ele questionou por que as turmas julgam inúmeros recursos
contra decisões em habeas corpus e só esse caso foi afetado ao pleno.
"Por
que justamente no caso do ex-presidente? Será que o processo tem nome e
não capa. A última vez em que se fez, isso custou ao ex-presidente 580
dias de prisão, e causou a impossibilidade de se candidatar a presidente
a República.”
O magistrado criticou, ainda, a remessa ao
plenário do habeas corpus julgado em 2018 que levou Lula à prisão.
Lewandowski afirmou que aquele julgamento também deveria ter sido feito
pela turma e que considera estranha a ida dos casos relativos ao petista
ao conjunto da corte.
Para o ministro, se o STF tivesse naquela
oportunidade impedido a detenção de Lula e firmado o entendimento de que
não é permitida a prisão após decisão em segunda instância, o resultado
das eleições de 2018 teriam sido diferentes.
Rosa Weber
aproveitou o assunto para afirmar que foi "massacrada" por seu voto
naquele julgamento. Na época, a ministra disse que era contrária à
execução provisória de pena, mas alegou que a jurisprudência da corte
era naquele sentido e que não poderia votar de maneira diferente em um
processo com um réu específico.
Um ano e meio depois, na análise
das ações constitucionais que tratavam do tema de maneira genérica, ela
deu o sexto voto decisivo contra a prisão em segunda instância.
Marco
Aurélio também defendeu que a responsabilidade sobre este julgamento
deveria ser da Segunda Turma. Presidente da corte, Luiz Fux respondeu
aos colega e falou da importância do julgamento.
"Ministro Marco
Aurélio, eu entendi a preocupação de vossa excelência ao assentar que a
afetação reclame uma relevância da decisão. Esse vício [a matéria em
análise] pode ter um efeito expansivo e atingir um grande trabalho feito
pelo STF no combate à corrupção. E, talvez, por isso, o relator tenha
esse cuidado", disse.
O ministro Alexandre de Moraes reforçou os argumentos em favor da manutenção da análise do tema pelos 11 integrantes da corte.
"Não
consigo entender a afirmação de que o julgamento pelo plenário do
Supremo significa desrespeito ao juízo natural", afirmou. "Não encontro
na Constituição Federal a expressão turmas do STF. O plenário do Supremo
delega às turmas as decisões", completou.
Ao seguir Fachin em
seu voto, para além do caso em julgamento, a ministra Carmén Lúcia
destacou que "o plenário é o Supremo inteiro, mas não é revisor de
turma. Compete ao relator estabelecer a qual órgão, turma ou plenário,
destina o caso", disse. Para a ministra, o caso Lula tem questões já
debatidas e que não cabe novo julgamento no pleno.
Gilmar, apesar
de ter criticado a decisão de Fachin de remeter o caso do plenário,
votou pelo prosseguimento do julgamento em vez da remessa do caso de
volta à Segunda Turma. Ele classificou as idas e vindas dos julgamentos
de Lula da Segunda Turma ao plenário e vice-versa como "macabra" e
"trôpega”.
Nesta quinta, os ministros retomarão o julgamento do
tema. Antes de analisar a anulação das condenações, a corte deve
discutir o ponto da decisão de Fachin que determinou a perda de objeto
do habeas corpus em que a defesa de Lula pedia a declaração de
parcialidade do ex-juiz Sergio Moro na condução do processo do tríplex
do Guarujá.
Na Segunda Turma, Fachin ficou vencido e, por 4 a 1, o
colegiado decidiu julgar o tema da mesma maneira. Em relação ao mérito,
por 3 a 2, a turma decidiu pela suspeição de Moro.
Agora, os
ministros devem decidir se a anulação dos processos por Fachin prejudica
o debate da parcialirdade do ex-magistrado ou se a Segunda Turma
poderia ter tomado aquela decisão.
A decisão do plenário é
soberana, mas é raro o STF invalidar julgamento das turmas. Depois
disso, os ministros entrarão no mérito da decisão de Fachin de declarar
que a 13ª Vara Federal de Curitiba não deveria ser a responsável pelos
processos de Lula e que os casos devem ser retomados da fase da análise
da denúncia pela Justiça Federal do DF.
O magistrado defende que
as ações contra o petista vão além dos esquemas de corrupção vinculados à
Petrobras e que apenas as investigações diretamente relacioandas à
estatal petrolífera deveriam ficar em Curitiva.
Por isso, remeteu
o caso à Justiça do DF, onde os crimes teriam sido cometidos, segundo a
acusação do Ministério Público Federal.
Independentemente da
manutenção ou não da decisão de Fachin que anulou as condenações do
ex-presidente, avaliam ministros do Supremo em conversas reservadas, a
participação do ex-presidente nas eleições de 2022 dificilmente será
evitada.
A análise tem como base o julgamento da Segunda Turma da
corte que declarou a suspeição do ex-juiz Sergio Moro e anulou a ação
em que o ex-presidente foi condenado por corrupção passiva e lavagem de
dinheiro no caso do tríplex de Guarujá (SP).
Na visão de
integrantes do tribunal, o debate do processo sobre o apartamento no
litoral paulista indicou que a tendência é o Supremo dar a mesma solução
à ação penal relativa ao sítio de Atibaia (SP), o outro processo em que
o petista foi condenado e leva à sua inelegibilidade.
A aposta
que está sendo feita internamente foi reforçada pelo voto de Cármen
Lúcia. Chamou a atenção de colegas não apenas a mudança de posição sobre
o tema - em 2018, ela havia votado a favor do ex-juiz da Lava Jato -,
mas também o conteúdo do seu discurso.
Nele, a magistrada abordou
bastante a questão do tratamento que Moro deu a Lula e falou menos da
situação específica do processo do tríplex.
Cármen fez questão de
afirmar que seu voto não discutia a condução de Moro em todas as
investigações da Lava Jato, mas na atuação dele em relação a Lula.
Ela
disse que tratou apenas de "um paciente julgado e que demonstra que, em
relação a ele, houve comportamentos inadequados e que suscitam portanto
a parcialidade".
FONTE: FOLHAPE.COM.BR