Publicada em 01/05/2021 às 09h18.
Novo olhar: conheça profissionais que viram suas funções ganharem destaque durante a pandemia
Antes da chegada da pandemia de Covid-19, muitos profissionais não tinham o devido reconhecimento.


Imagem meramente ilustrativa / Reprodução do google.


Neste sábado (1º) é comemorado o Dia do Trabalhador. Durante a pandemia de Covid-19, que já matou mais de 400 mil pessoas no Brasil, alguns profissionais passaram a ter um melhor reconhecimento de suas profissões. A visibilidade é um fator do qual muitos trabalhadores detalham que faltara no dia a dia de suas rotinas.

“Já ouvi de muitos companheiros de trabalho que tinham vergonha em dizer que é coveiro. Nunca tive essa vergonha e quando me perguntam, eu digo com orgulho. Quero ver o povo realmente reconhecer a nossa função”, diz o operador de campo Danilo Coutinho, 31, que já atua na área há 11 anos. 


Assim como Coutinho, antes da chegada da pandemia de Covid-19, muitos profissionais não tinham o devido reconhecimento. A exemplo do que aconteceu com os caminhoneiros, que, antes da greve, a população em geral não parava para enxergar a importância da função. 


Com 400 mil mortes acumuladas desde o início da pandemia, algumas atividades, mais do que nunca, não podem parar no Brasil. Alguns profissionais, então, passaram a ter um maior reconhecimento de suas respectivas funções. 
“Muita gente já critica por ser coveiro. Mas agora posso olhar e ver que o povo tem reconhecimento da função da gente. Alguém tem que fazer esse serviço e nesse momento, creio que os familiares veem a importância que temos”, acrescenta Coutinho. 

A Covid-19 mudou completamente todos os protocolos. No cemitério Morada da Paz, por exemplo, onde Danilo Coutinho trabalha, houve um aumento de 25% no volume de atendimentos, seja sepultamento ou cremação. 


Ainda assim, a rotina de sepultar uma pessoa com Covid nunca se torna comum para Coutinho. “A cada plantão, é um sentimento diferente. Através da família, a gente se comove e não tem como fazer vista grossa ou fingir que não tem nada. Porque essa realidade da pandemia é a que estamos vivendo atualmente”, conta.  

Coutinho atua na “última” etapa do fechamento do ciclo da vida. Mas, antes dessa tarefa, o cerimonialista é a figura presente entre as famílias para dar o suporte necessário e consolar os enlutados. 

Marleide Freitas, 46, está na área há pouco mais de um ano. Ela se encantou pela profissão após ver o trabalho de um profissional ao consolar sua família diante de uma perda. A admiração desembocou no trabalho. 


“A situação que estamos vivendo agora é muito assustadora, porque estamos vendo a ordem se invertendo. Por conta da pandemia, os filhos estão sendo enterrados pelos pais”, explica Marleide, que observa, ainda, que há uma mudança das pessoas no olhar. 

“Já tive situações em sepultar vítimas de Covid-19. Estávamos apenas a filha e eu. Assim como um casal de netos sepultado o avô. Nesse momento fomos o porto seguro deles, então já passaram a nos olhar de outra forma”, detalha a cerimonialista. 

As proibições relacionadas aos velórios, segundo Marleide, mudaram drasticamente a forma da despedida. “Nos cemitérios particulares, a gente ainda consegue fazer uma oração, consolar os poucos familiares, mas tudo com o distanciamento social correto", detalha, também expondo o medo que tem de perder algum ente querido para a doença. 


O medo, aliás, esse sentimento tão latente em qualquer pessoa que tenha dimensão da crise sanitária, precisa ser ressignficado pelo agente funerário Thiago Ferreira, 38, que já atua na função há 20 anos. 


O trabalho de Ferreira é buscar os corpos em residências, hospitais, Instituto de Medicina Legal (IML) e no Serviço de Verificação de Óbitos (SVO). “Costumo dizer que somos também psicólogos, além de agentes. É que a parte mais difícil é ter que falar aos familiares que não podem velar os entes queridos quando o óbito é por Covid-19. É muito triste dar a notícia que não vão poder dar o último adeus”, explica. 

Ainda de acordo com o agente, a sociedade, agora, enxerga a profissão de uma forma diferente dos tempos pré-pandemia. “As pessoas, hoje, já nos agradecem, existe uma gratidão com o nosso trabalho. Era isso que faltava à nossa classe. As pessoas acham que como estamos lidando com desconhecidos é mais fácil. Mas não. Você se coloca no lugar deles e pensa que poderia ser um familiar seu”, conta. 


FONTE: FOLHA DE PERNAMBUCO.



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