Publicada em 30/09/2021 às 09h01.
Restrições para mulheres e fuga em massa: veja em 7 pontos como está o Afeganistão 1 mês após a retirada dos EUA
Veja o que mudou após a saída das tropas americanas e o fim das duas décadas de ocupação estrangeira no país, agora sob o controle do grupo extremista Talibã.


Governo Talibão não possui participação feminina / Reprodução do G1.


Na noite de 30 de agosto de 2021, uma segunda-feira, as tropas americanas deixaram o Afeganistão e puseram fim, oficialmente, às duas décadas da guerra mais longa dos Estados Unidos.


O último soldado deixou o aeroporto internacional de Cabul por volta da meia noite, minutos antes da data limite estabelecida pela Casa Branca para o fim da operação, dia 31 de agosto.


EUA e aliados corriam contra o tempo desde que o Talibã tomou a capital afegã em 15 de agosto para poder retirar suas equipes diplomáticas, civis e militares do país centro-asiático.


Nas primeiras horas da madrugada de 31 de agosto, o grupo extremista celebrou o fim da ocupação e afirmou que a data passaria a marcar a "independência" do Afeganistão.


Em 30 dias um novo governo foi formado – apenas com homens –, mulheres tiveram seus direitos restringidos e milhares tentam ainda abandonar o país.


O g1 elenca, em 7 pontos, o que marcou o primeiro mês após a retirada americana:


1. Com a rápida retirada, americanos e aliados ficaram para trás


Americanos e aliados precisaram abandonar o país às pressas e cenas caóticas foram registradas no aeroporto internacional de Cabul nos últimos dias de ocupação.


Segundo o governo dos EUA, mais de 120 mil cidadãos americanos foram retirados do país apenas nas duas últimas semanas de operação – no entanto, não há um número exato de quantos aliados afegãos podem ainda ter ficado no país.


O International Rescue Committee, organização que presta assistência a pessoas em áreas de conflito, estima em mais de 300 mil o número de afegãos que trabalharam em favor dos EUA desde 2001, data do início da ocupação.


O Pentágono também afirmou que cerca de 200 pessoas com nacionalidade americana ainda permaneciam no Afeganistão – mas o número pode ser ainda maior, por haver muitas pessoas com dupla cidadania.


O governo americano cobra do regime Talibã que cidadãos e afegãos com vistos humanitários possam deixar o país em segurança. O grupo extremista diz que garante a segurança dos viajantes, mas há relatos de perseguições e impedimentos para seguirem viagem.


2. Afegãos tentam fugir pela fronteira com Paquistão


Ao mesmo tempo que os EUA abandonavam o controle do aeroporto de Cabul, mais de 20 mil pessoas tentavam cruzar para o Paquistão, país com o qual o Afeganistão compartilha 2.570 km de fronteira.


Segundo a Agência das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), em seis meses de 2021, mais de 500 mil cidadãos abandonaram o país e o número só tem aumentado. A fronteira paquistanesa recebe diariamente cerca de 20 mil pessoas – o triplo do que estava acostumada.


A agência da ONU estima que mais de 2 milhões de refugiados afegãos vivam atualmente nos países vizinhos Irã e Paquistão. A Acnur também estima que mais 500 mil refugiados deixem o Afeganistão nos próximos meses.


3. Último refúgio da resistência, os talibãs tomam o Vale do Panjshir


Com o controle da capital Cabul, em 15 de agosto, os talibãs declararam ter retomado o Afeganistão 20 anos após serem expulsos do poder pelos EUA. No entanto, mesmo após a retirada dos americanos, uma última província ainda resistia ao novo regime: o Vale do Panjshir.


O vale montanhoso a cerca de duas horas de carro da capital Cabul foi a única das 34 províncias do Afeganistão que se mantinha livre do controle do Talibã.

A capital de Panjshir é Bazarak, que fica a 120 km a nordeste de Cabul, e a região é um vale íngreme e montanhoso de difícil acesso.


O povo do Vale do Panjshir é de uma etnia diferente dos pashtus, que são maioria dentro do Talibã. Quando o Talibã dominou o Afeganistão pela primeira vez, entre os anos de 1996 e 2001, houve resistência no Vale do Panjshir.


No início de setembro, o Talibã anunciou que assumiu o controle total do vale.


4. Aumenta o risco para a presença de grupos terroristas


Em meio à atribulada retirada americana do país, membros do grupo terrorista Estado Islâmico organizaram um ataque em uma das entradas do aeroporto de Cabul deixando dezenas de mortos.


O ataque evidenciou a presença de grupos terroristas no país, o que gera uma preocupação internacional de que o Afeganistão, sob o regime talibã, se torne uma área "segura" para esses grupos, como foi com a Al Qaeda.


A luta contra a organização terrorista Al Qaeda, responsável pelos ataques do 11 de Setembro, foi o principal motivo da invasão ao Afeganistão em 2001.


A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) alertou o Talibã dizendo que o grupo não deve permitir que o Afeganistão se torne um terreno fértil para o terrorismo novamente. A aliança militar disse ainda que pode atacar qualquer grupo terrorista a distância.


5. 100% homens: governo talibã é anunciado sem a participação feminina


Os líderes talibãs vieram anunciando, durante todo o mês de setembro, nomes que integrarão o governo do Afeganistão – e mantiveram um alto escalão 100% masculino.


A primeira parte do governo havia sido anunciada no dia 7, apenas com líderes históricos do grupo extremista.


O governo é composto apenas por homens e não há mais um ministério dedicado às mulheres, ao contrário do que ocorria no governo anterior, derrubado pelo Talibã.


6. Mulheres afegãs voltam a ter restrições para poder trabalhar e estudar


As aulas no Afeganistão foram interrompidas em agosto, quando o Talibã voltou ao poder após 20 anos, antes mesmo da retirada das tropas estrangeiras do país e do fim da ocupação americana.


Desde então, as meninas do ensino fundamental e as universitárias já retornaram às aulas, mas com restrições, começando pela separação dos alunos homens.


Além disso, há diversos relatos de mulheres que precisaram abandonar seus postos de trabalho e entregá-los a parentes homens. Isso mesmo com o regime tendo afirmado que as mulheres não seriam impedidas de trabalhar e de frequentar a escola.


Mas isso não é o que vem sendo feito. O reitor indicado pelos talibãs para a Universidade de Cabul anunciou que mulheres e professoras serão proibidas nos cursos da instituição.


O grupo extremista já esteve no poder uma vez antes, entre 1996 e 2001, e nesses anos as mulheres não podiam estudar – elas não podiam nem mesmo andar em público se não estivessem acompanhadas de um parente homem.


7. Aumento da repressão e anúncio de leis e punições mais duras


A ONU afirmou no início do mês que ao menos quatro pessoas foram mortas na violenta repressão do Talibã a uma manifestação pacífica em Cabul e denunciou que a resposta do grupo aos protestos tem sido cada vez mais violenta, com o uso de munição real, cassetetes e chicotes.


Protestos, sobretudo os liderados por mulheres, representam um desafio para o novo governo do Talibã, que está tentando passar uma imagem de maior moderação ao Ocidente (apesar de a realidade confrontar o discurso do grupo extremista).


O Talibã também é acusado de agredir e prender jornalistas que cobriam a mesma manifestação. Taqi Daryabi e Neamat Naghdi ficaram com ferimentos nas costas, nas pernas, no ombro e no braço, além de hematomas e cortes nos rostos.


Além disso, na semana passada, um dos fundadores do talibã e chefe do grupo que controla a aplicação da Sharia, em uma interpretação extremista da lei islâmica no país, afirmou que amputações e execuções voltarão a acontecer no Afeganistão.


Em entrevista a agência de notícias "Associated Press", o mulá Nooruddin Turabi afirmou que as punições severas – aplicadas a assaltantes e adúlteros, por exemplo – que durante os anos 1996 e 2001 aconteciam em estádios, voltarão a ocorrer, mas de forma privada.


“Ninguém vai dizer para a gente como devem ser nossas leis", afirmou o religioso. "Nós vamos seguir o islã e legislar a partir do Corão."


FONTE: G1.



 

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