
Viagra / Reprodução do google.
Nos anos 1990, ela revolucionou o tratamento da disfunção erétil. Depois, descobriu-se que a pílula azul também era eficaz para reduzir hipertensão pulmonar. Agora, pesquisadores da Clínica Cleveland, nos EUA, afirmam que o sildenafil — substância do Viagra e do Ravatio — é um candidato promissor para a prevenção e o manejo da doença de Alzheimer.
Em um estudo publicado na revista Nature
Aging, os cientistas relataram uma redução de 69% do mal neurodegenerativo em
usuários desses medicamentos. Porém, a associação foi feita por modelo
computacional e, antes que haja confirmação da indicação, é preciso realizar
diversos estudos clínicos.
De acordo com a Organização
Mundial da Saúde (OMS), 35,6 milhões de pessoas convivem com a doença de
Alzheimer, caracterizada pela perda progressiva das funções cognitivas. Esse
número pode triplicar até 2050. No Brasil, uma pesquisa da Universidade Federal
de Pelotas, no Rio Grande do Sul, estimou em 1 milhão o número de pacientes,
cenário que será quatro vezes maior em três décadas, segundo os especialistas.
A equipe de Cleveland, chefiada por Feixiong Cheng, do Instituto de Medicina Genômica, primeiramente integrou dados genéticos e biológicos para que um algoritmo determinasse quais dos mais de 1,6 mil medicamentos aprovados pela Food and Drug Administration (FDA) para diversas doenças poderia também combater o Alzheimer. A ideia era aproveitar remédios preexistentes, o que significa uma economia de anos, ou décadas, no estudo de uma droga.
O estudo computacional teve
como foco os medicamentos que atuam em duas proteínas já amplamente conhecidas
pelo envolvimento com a doença de Alzheimer: a amiloide e a tau, localizadas no
cérebro. O resultado apontou para o sildenafil, conta Cheng. "Essa
substância, que demonstrou melhorar significativamente a cognição e a memória
em modelos pré-clínicos, apresentou-se como o melhor candidato a
medicamento", disse, em um comunicado de imprensa.
Banco de dados
Com essa informação, a equipe
voltou-se para um banco de dados de mais de 7 milhões de pacientes
norte-americanos, usuários e não usuários do sildenafil. "Notavelmente,
descobrimos que o uso de sildenafil reduziu a probabilidade de Alzheimer em
indivíduos com doença arterial coronariana, hipertensão e diabetes tipo 2,
todos as quais são comorbidades significativamente associadas ao risco da
doença, bem como naqueles sem (essas enfermidades)", acrescentou Cheng.
Os usuários da substância
tinham 69% menos probabilidade de desenvolver doença de Alzheimer após seis
anos de acompanhamento. Em comparação a outras drogas que estão sendo testadas
para o mal neurodegenerativo, o Viagra/Ravatio saiu-se melhor que o losartan
(redução de risco de 55%), metformina (63%), diltiazem (65%) e glimepirida
(64%).
Usando uma grande rede de
mapeamento de genes, os pesquisadores integraram dados genéticos e outras
informações biológicas para verificar quais dos mais de 1.600 remédios teriam
efeito.
Para testar as descobertas
estatísticas em laboratório, os cientistas desenvolveram um modelo de célula
cerebral derivado de células-tronco de um paciente de Alzheimer. Nesse
material, eles descobriram que o sildenafil estimula o crescimento dos tecidos
do cérebro, ao mesmo tempo em que diminui a hiperfosforilação da proteína tau,
fornecendo algumas dicas sobre a possível atuação da droga.
"Como nossas descobertas
apenas estabelecem uma associação entre o uso de sildenafil e a redução da
incidência da doença de Alzheimer, agora estamos planejando um ensaio
mecanístico e um ensaio clínico randomizado de fase II para testar a
causalidade e confirmar os benefícios clínicos do sildenafil para pacientes com
Alzheimer", disse Cheng. "Também prevemos que nossa abordagem seja
aplicada a outras doenças neurodegenerativas, incluindo doença de Parkinson e
esclerose lateral amiotrófica, para acelerar o processo de descoberta de
drogas."
Embora tenha considerado o
estudo interessante "do ponto de vista científico", Tara
Spires-Jones, diretora adjunta do Centro Descobertas Científicas sobre o
Cérebro da Universidade de Edimburgo, não está convencida de que o Viagra poderá
prevenir ou tratar Alzheimer. "O estudo analisa dados de um grande número
de pessoas, mas há várias limitações importantes a serem consideradas. Os dados
fornecidos pelas companhias de seguros não são muito detalhados e não incluem
informações sobre outros fatores de risco importantes para a doença de
Alzheimer, como genes e nível de educação. As mulheres correm maior risco de
Alzheimer do que os homens e, como este medicamento, o sildenafil é mais
comumente usado para a disfunção erétil, houve menos mulheres tomando a droga
neste estudo, e o efeito nas mulheres que tomaram o medicamento não foi tão
forte", destaca.
Spires-Jones lembra que os
próprios autores apontam, no estudo, que esse tipo de pesquisa de dados não
pode, sozinho, determinar se a droga realmente previne e trata a doença.
"Existem outras explicações possíveis para as descobertas estatísticas; por
exemplo, sabemos que as mudanças cerebrais começam décadas antes dos sintomas
de demência e é possível que essas mudanças iniciais do Alzheimer reduzam o
desejo sexual — assim, as pessoas não pediriam uma receita para disfunção
erétil", acredita. "Mais trabalho será necessário para saber se essa
droga pode realmente reduzir o risco de doença de Alzheimer",
afirma.
Reconhecendo as limitações, Ivan Koychev, pesquisador clínico sênior da Universidade de Oxford, considera o trabalho promissor. "É uma pesquisa estimulante, pois aponta para um medicamento específico que pode oferecer uma nova abordagem para o tratamento da doença. Também ressalta o valor de explorar se os medicamentos disponíveis podem ser úteis para mudar o curso da doença de Alzheimer", assinala o especialista. "Essa abordagem de 'reaproveitamento' pode reduzir o período de descoberta da droga em anos e reduzir o risco de falha, pois já sabemos o quão seguras essas drogas são em humanos", conclui Koychev.
FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO.