
Imagem meramente ilustrativa / Reprodução do google.
Trânsito e insegurança são duas das questões que mais incomodam os moradores de grandes cidades, e empresas chinesas querem ganhar espaço ajudando a resolvê-los. Ao menos duas delas, Alibaba e Huawei, oferecem as chamadas plataformas de smart cities: um pacote de soluções que promete usar alta tecnologia para resolver questões simples da rotina, como um carro parado atrapalhando o tráfego.
Mesmo em batidas leves, é comum que motoristas esperem a polícia ou alguma autoridade chegar, para garantir a responsabilização do culpado. Enquanto aguardam, bloqueiam o espaço. "Em algumas cidades da China, o policial chega, puxa as imagens das câmeras da região e avalia se houve culpa de alguém. Assim, o inocente pode ir embora na hora", diz Rômulo Horta, diretor de marketing da Huawei no Brasil.
Em Shenzen, metrópole de 12
milhões de habitantes, houve redução de 15% no congestionamento em horários de
pico e aumento de 9% no volume de veículos em movimento após a adoção da
tecnologia, que inclui monitoramento com câmeras e softwares capazes de ajustar
semáforos e rotas para otimizar o uso das vias, tanto com base na situação
atual quanto em previsões, feitas a partir do histórico do trânsito.
Singapura está um passo além. Lá, câmeras também monitoram o trânsito, mas, ao
detectar um acidente, o sistema pode enviar drones ao local, para fazer imagens
da cena de vários ângulos e avaliar se há feridos. As informações são passadas
para a central, que decide se envia ambulâncias.
Os sistemas também visam melhorar o fluxo de pedestres nas ruas e no transporte
público. A ferramenta City Brain, do Alibaba, por exemplo, é usada em cidades
como Hangzhou e Suzhou -com 10 milhões de habitantes cada uma- para organizar a
entrada de passageiros no metrô e em ônibus, de modo que as viagens sejam mais
rápidas e não haja gargalos, como filas para subir a escada rolante.
De modo geral, as plataformas se dividem em quatro partes: captadores de dados
(câmeras, sensores de movimento e som), uma estrutura de análise do que foi
coletado, equipamentos para que os funcionários recebam as informações em tempo
real e uma rede veloz de internet para conectar todo o sistema.
O modelo de contratação, por
sua vez, tem mudado. Em vez de comprar os equipamentos, pode-se contratá-los
como um serviço e ter mil pontos de captação de dados em vez de mil câmeras,
por exemplo. O software e a rede de internet mais rápida podem também ser pagos
de acordo com o uso.
"Nossa sugestão é que governos comecem pela instalação da parte de
segurança pública e trânsito, que poderá ser adaptada a outros usos", diz
Ricardo Mansano, gerente de soluções da Huawei. A empresa já fez parte da
implantação de mais de 160 smart cities, em mais de cem países e regiões,
incluindo o Brasil.
A cidade de Aparecida de Goiânia (GO), de 590 mil habitantes, contratou um
pacote que inclui 720 km de fibra óptica e 650 câmeras, além de um datacenter
próprio. A ideia é que a internet mais rápida seja usada em outras funções,
como oferecer wi-fi gratuito em praças e melhorar o acesso nas escolas
públicas.
Na Bahia, há cerca de mil câmeras ligadas a um sistema de reconhecimento facial
e de leitura de placas, e mais 300 deverão ser adicionadas. Até o fim de junho,
a tecnologia já havia identificado 211 foragidos nas ruas, presos após o sistema,
adotado no final de 2018, gerar um alerta.
O reconhecimento pode ser feito mesmo que o alvo esteja usando máscara, e o
sistema vai ficando cada vez mais ágil. Um serviço do Alibaba é capaz de
analisar 16 horas de vídeo em um minuto, em busca de informações específicas,
como checar se um suspeito passou por um determinado local.
Algumas mudanças ajudam a baixar os custos. As câmeras em si não precisam ter
capacidades extras, pois a análise das imagens será feita a distância. Pode-se
também aproveitar os registros de equipamentos privados, como de casas e
empresas, que ficam voltadas para a rua.
Para garantir uma internet mais rápida, é possível criar uma rede privada para
conectar os equipamentos, a central e os funcionários que utilizarão os dados. "Com
uma conexão 5G, posso enviar imagens em alta resolução para o tablet de um
policial na rua, em vez de falar a descrição por rádio", afirma Mansano.
A troca de dados entre as
diferentes partes do governo abre possibilidades como enviar a paramédicos de
uma ambulância o histórico de saúde do paciente que estão indo buscar, flagrar
um caminhão que esteja jogando entulho na calçada ou monitorar em que parte da
cidade está um aluno que não foi à escola.
Como essas plataformas geram uma quantidade gigantesca de dados, faz-se
necessário o uso de vários sistemas para analisar informações e gerar alertas,
como um acidente ou um foragido na multidão.
Entra aí um dos pontos sensíveis: como garantir que governos e empresas que
armazenam as informações farão um bom controle dos dados? Estarão ali
relatórios detalhados de como cada pessoa se deslocou pela cidade e ocorrências
em que se envolveu. O sistema poderia, inclusive, registrar que alguém jogou o
lixo fora do cesto na calçada ou esqueceu de indicar com a seta ao entrar em
uma rua de carro.
"Muitas tecnologias de reconhecimento facial estão sendo implantadas no
Brasil, mas isso é feito sem se preocupar com a privacidade dos cidadãos",
diz Bárbara Simão, coordenadora da área de privacidade e vigilância do centro
de pesquisas InternetLab. "Muitas tecnologias ainda caem em um vácuo
normativo."
Uma forma de tentar equilibrar a questão é incluir nos contratos a
possibilidade de que possam ser feitas auditorias externas, para garantir que
os dados sejam tratados corretamente. Assim, ajuda-se a evitar casos de
vazamentos ou discriminação, como tecnologias de reconhecimento facial mal
calibradas para pessoas negras, que podem gerar transtornos a um cidadão que só
queria chegar mais cedo em casa.
EXEMPLOS DE USO
Trânsito
- Ao analisar dados das câmeras, os sistemas detectam problemas, como um
acidente, e enviam um alerta para outros motoristas desviarem da área, de modo
a evitar congestionamento;
- Em caso de batida, arquivo de imagens pode mostrar de quem foi a culpa, sem
que seja necessário esperar a perícia, o que libera a via mais rapidamente;
- Adequar o tempo dos semáforos para melhorar a fluidez, com base na média de
trânsito por dia e horário e nos dados em tempo real;
- Cobrar pedágio urbano usando leitura automática de placas. Pode-se também
multar carros que estão circulando sem os documentos em dia;Transporte público
- Sensores podem detectar que trens ou ônibus estão muito cheios e, assim,
reforçar a frota de modo mais ágil;
- Reconhecimento facial pode ser usado para cobrar a passagem, o que dispensa
uso de bilhetes;Segurança pública
- Câmeras com reconhecimento facial permitem escanear multidões e encontrar
foragidos;
- Sensores podem detectar som de tiros, explosões ou fumaça, acelerando o envio
de ajuda;Ocupação urbana
- Softwares podem analisar imagens para detectar ocupações irregulares, como
invasão de áreas ambientais, construções ou abertura de comércios sem
licença;
AS PARTES DO SISTEMA
- Captação: Câmeras, sensores de movimento, de calor etc., para gerar dados em
tempo real das ruas;
- Gerenciamento: Softwares capazes de analisar grandes quantidades de dados e
gerar alertas;
- Entrega de informações: Salas de controle para monitorar os dados e
equipamentos para enviar informações a agentes nas ruas;
- Redes: Conexões de internet rápidas, às vezes privadas, para conectar todo o
sistema.
FONTE: NOTÍCIA AO MINUTO.