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A Câmara
dos Deputados aprovou na terça-feira (4) um projeto de lei que regulamenta a
licença-paternidade no Brasil.
O texto aumenta o número de dias concedidos a pais a título de licença remunerada para o trabalhador do sexo masculino que acaba de ter um filho, natural ou adotado.
Tire a
seguir as suas dúvidas sobre o projeto de lei.
Quantos dias homens terão de licença-paternidade?
O texto aprovado na Câmara dos Deputados amplia a
licença-paternidade dos atuais cinco dias para 20 dias, mas com um aumento
gradual até 2027.
Originalmente, a previsão era de um benefício de 60 dias. O relator da proposta, Pedro Campos (PSB-PE), chegou a um acordo com o governo e apresentou um parecer com mudanças no texto.
O deputado ainda tentou votar uma versão do texto com uma licença de 30 dias, mas, diante de resistências, apresentou um novo parecer em que o período foi reduzido para 20 dias.
O texto de Pedro Campos também define que a licença pode ser dividida, com o primeiro período sendo no mínimo a metade do total e o resto podendo ser usufruído 180 dias depois. O relator ajustou a regra de estabilidade para acompanhar esse fracionamento.
Em caso de falecimento da mãe, a licença será estendida para 120 dias.

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Como é hoje?
Atualmente não há uma lei específica que
regulamente a licença-paternidade. A regra atual é aplicada com base em um
dispositivo transitório da Constituição de 1988, que define um período de cinco
dias (nos quais é esperado o registro da criança), mas que também pede ao
Congresso que regulamente a concessão do benefício.
O
que falta para a nova licença virar lei e entrar em vigor?
O texto aprovado pelos deputados ainda precisa ser analisado no Senado. Se for
aprovado sem alterações, vai para a sanção do presidente da República. Se Lula
não vetar o texto, entra em vigor quando da sanção. Só então o projeto se
torna, de fato, uma lei.
A versão original do projeto
previa a ampliação dos atuais cinco dias de licença para 30 nos dois primeiros
anos, a partir de 2027. Depois, seriam 45 dias no terceiro e no quarto anos,
chegando a 60 dias no quinto ano.
Após as negociações, o texto aprovado prevê
um aumento mais gradual. Assim, serão 10 dias do primeiro ao segundo ano, 15
dias do terceiro ao quarto ano e 20 dias a partir do quarto ano.
O
pai poderá se afastar do trabalho e manter a remuneração?
Sim. Está prevista ainda a criação do salário-paternidade, custeado pelo INSS e
compensado para as empresas. A estabilidade no emprego será preservada.
O projeto favorece as mulheres?
Para analistas de mercado de trabalho, a medida torna o cenário mais positivo
para as mulheres, ainda que a diferença para a licença-maternidade continue
grande. Os homens terão mais tempo para ajudar as mulheres nos primeiros dias
de vida do bebê.
Na leitura de Bruno Imaizumi, economista da
4intelligence, o aumento da licença-paternidade pode inserir mais mulheres no
mercado de trabalho:
"Com uma licença do
mercado mais equitativa entre pai e mãe, aumenta a probabilidade de retorno
delas ao mercado de trabalho. E mais gente (no mercado) ajuda na questão da
produtividade, na demografia, nas condições familiares e também na Previdência
no longo prazo".
Para Marcelo Neri,
pesquisador do FGV Social, a extensão do benefício contribuirá para diminuir
eventuais discriminações em relação à empregabilidade feminina:
"As
empresas tendem a não contratar mulheres em idade fértil por conta da
licença-maternidade. Em certo sentido, isso ajuda as mulheres, no sentido de
diminuir essa discriminação".
E o bebê, é favorecido?
Neri ressalta que todo investimento na primeira infância traz retornos
consistentes no longo prazo e que a medida que afeta diretamente os
recém-nascidos:
"Investimentos
feitos na primeira infância tem um retorno social muito mais alto. (A medida)
estabelece desde os primeiros dias de vida se ter relação mais próxima do bebê
com os pais. A taxa de retorno é muito alta", afirma.
Ele continua:
"A
transição demográfica tem acontecido em velocidade grande. O que a França
passou em cem anos, estamos fazendo em vinte. É um custo fiscal, mas é um lado
do retorno do benefício social que é melhor do que qualquer outra área".
A medida terá custo para o governo?
Sim, porque a remuneração dos pais será compensado com um benefício do INSS,
como é hoje o salário-maternidade. Na versão do parecer em que previa uma
licença de 30 dias, o impacto fiscal era de R$ 6,5 bilhões até 2030. Agora, com
20 dias, a estimativa é de R$ 5,4 bilhões.
O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), chegou a sinalizar a aliados que o texto ainda precisa ser mais bem debatido e que há resistências por conta do impacto fiscal. Para Imaizumi, da 4Intelligence, não é esse benefício que será o responsável por aumentar a trajetória da dívida pública:
"O
aumento de despesas fiscais já é desafiador. Não é por conta dessa medida que o
fiscal vai explodir. (Os reflexos) Não são enxergados no curto prazo. É um
investimento social que tem impacto, enxergado no médio e longo prazos".
A
licença-paternidade pode estimular casais a ter filhos?
Não é um fator isolado, mas pode contribuir para esta decisão, dizem os
especialistas. Neri, da FGV Social, observa que pode haver um impacto
demográfico positivo para a economia:
"Você investe recursos
públicos em algo que aumenta a probabilidade de as pessoas terem mais filhos, o
que é importante para a economia, porque vivemos transição demográfica. De
acordo com o último Censo, o número de filhos por casal está abaixo de 2, que é
a taxa de reposição".
Como foi a tramitação na Câmara?
Como não há previsão de licença-paternidade na Constituição, em 2023, o Supremo
Tribunal Federal (STF) decidiu que o Congresso tinha até julho deste ano para
regulamentar a licença.
O texto aprovado na terça-feira reúne vários projetos, como um da ex-senadora Patricia Saboya e outro de autoria da deputada Tabata Amaral (PSB-SP).
Em julho, a Câmara havia aprovado um requerimento de urgência para o texto — ainda assim, foram quatro meses para que ele avançasse.
Como funciona em outros países?
O tema da licença-paternidade é abordado de forma diferente entre nações pelo mundo. Há países no mundo que oferecem o benefício de forma igualitária para homens e mulheres, como a Suécia e a Nova Zelândia.
Em latino-americanos como o Chile, no entanto, o tempo de licença reservado para os pais é de apenas uma semana.
De acordo com um levantamento de 2024 da Divisão de Políticas Sociais da OCDE, que mostra um panorama de como funcionam as licenças parentais nos países da organização que reúne economias desenvolvidas e da União Europeia, apenas quatro integrantes dos blocos oferecem o direito de forma igualitária para pais e mães.
Confira a seguir como funciona o direito em alguns dos outros
países que aparecem no relatório.
Suécia: Ambos os responsáveis têm direito, conjuntamente,
a 480 dias de licença parental. A remuneração é paga a partir do momento do
nascimento ou da adoção de uma criança.
Cada um dos
responsáveis — se forem dois — tem direito a 240 dias de afastamento do
trabalho. Desse tempo, 90 dias são uma cota individual reservada, enquanto o
restante dos dias de cada um podem ser transferidos para o outro progenitor. O
pai e a mãe podem tirar até 30 dias ao mesmo tempo. No entanto, é importante
observar que a remuneração não é integral. Varia dependendo do período da
licença, sendo maior nos primeiros 390 dias (dos 480) e menor nos últimos 90.
Nova Zelândia: Também está entre os países que oferecem a licença de forma igualitária para pais e mães. Lá, a licença parental remunerada é dada ao cuidador principal, que pode ser o pai ou mãe, e é permitida em um período de até 26 semanas (182 dias ou 6 meses). O benefício pode ser transferido entre os parceiros, mas só pode ser usado por um dos dois por vez. O pai, se não for o cuidador principal, ainda teria direito à sua licença paternidade estatutária de 1 ou 2 semanas, que, na Nova Zelândia, é não remunerada.
Estados
Unidos: No país mais rico do mundo não existe
uma licença parental remunerada em nível federal. A legislação nacional garante
apenas até 12 semanas de afastamento não remunerado após o nascimento ou adoção
de um filho, com proteção do emprego. Esse direito vale para trabalhadores de
empresas com mais de 50 funcionários e que tenham pelo menos um ano de vínculo.
Portanto, pais devem se preparar financeiramente para os primeiros meses de um filho. Alguns estados e cidades dos EUA porém, criaram seus próprios programas de licença familiar remunerada, que também contemplam os pais. Neles, homens e mulheres podem se afastar para cuidar de um recém-nascido, recém-adotado ou de um familiar doente, recebendo uma parte do salário (geralmente entre 60% e 90%) por 6 a 12 semanas.
Entre os estados que já oferecem esse benefício estão Califórnia, Nova York, Nova Jersey, Rhode Island, Washington, Massachusetts, Connecticut, Oregon e Colorado, além do Distrito de Columbia.
Chile: O
Chile possui um número de dias reservados especialmente para os homens que têm
filhos mais próximo ao previsto no Brasil. No entanto, esses dias podem ser
ampliados, caso a licença parental seja compartilhada. Funciona assim: as mães
podem ter um total de 30 semanas de licença remunerada, que começam a contar em
seis semanas antes do parto, e mais 12 semanas após do parto, que podem se
somar ainda a mais 12 semanas adicionais de licença parental.
Essa última é parcialmente compartilhável entre os pais: seis são exclusivas para a mãe, enquanto as restantes são um direito familiar e podem ser compartilhadas com os pais. Sem contar com a licença parental compartilhada, homens só possuem uma semana de licença-paternidade remunerada exclusivamente para eles no Chile. Em qualquer uma das licenças, a remuneração é de 100% dos ganhos líquidos dos pais.
França: Já
na França, as mães têm direito a 16 semanas de licença-maternidade paga
integralmente e a 26 semanas de licença parental com remuneração fixa e baixa,
totalizando 42 semanas de licença paga. A parte parental é pouco remunerada,
pois o benefício tem caráter assistencial, e não de substituição salarial. Os
pais, por sua vez, têm direito a 30,2 semanas de licença paga, um dos períodos
mais longos entre os países da OCDE. Nesse tempo estão inclusas 4,2 semanas de
licença paternidade e nascimento com pagamento integral e 26 semanas de licença
parental de baixo valor.
Itália: Na
Itália, as mães têm direito a 21,7 semanas de licença-maternidade paga a 80% do
salário, além de 26 semanas de licença parental, das quais 13 podem ser
reservadas aos pais, com remuneração reduzida a 30%. Além disso, os pais
recebem 2 semanas de licença-paternidade exclusiva para eles e paga a 100% do
salário. Como eles podem tirar até 13 semanas de licença parental com pagamento
de 30%, no total, o direito pago reservado aos pais pode chegar a 15 semanas.
Portugal: Em
Portugal, os pais têm direito a uma licença-paternidade de 5 semanas, das quais
4 são obrigatórias, todas remuneradas a 100% do salário. Além disso, há 30 dias
de licença parental inicial que o pai deve usar para que o casal receba semanas
extras na licença compartilhada, somando um total de 22,3 semanas de licença
paga reservada aos pais, com remuneração média de 65% dos ganhos.
Se o pai utilizar pelo menos 60 dias da licença compartilhada, o benefício familiar aumenta de 83% para 90% do salário. No total, o direito pago reservado aos pais equivale a 14,5 semanas de salário integral, bem abaixo das 22,3 semanas equivalentes disponíveis para as mães.
FONTE: FOLHA PE.