
Foto: Divulgação.
Municípios da Mata Norte de Pernambuco voltaram a sofrer com os danos causados pelas fortes chuvas. Um dos mais afetados é Goiana, que chegou a registrar um volume com mais de 110 milímetros nas últimas 24 horas, segundo balanço da Defesa Civil da cidade divulgado ontem. A primeira cheia deste ano ocorreu em 1º de maio.
A Folha de Pernambuco foi
ao município, ontem à tarde, para conferir a situação. Logo na entrada da
cidade, é possível observar o transbordamento do Rio Goiana, inundando
bairros e comunidades ribeirinhas.
O trecho mais afetado foi a comunidade ribeirinha Baldo do Rio, mas Vila Bom Tempo e bairros próximos ao Canal Goiana, no entorno da BR-101 Norte, também foram prejudicados. Ao todo, de acordo com a Defesa Civil do Estado, Goiana totaliza 481 desabrigados e 900 desalojados. A situação de emergência foi prolongada por mais 30 dias.

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Na ponte sobre o Rio Goiana, perto do Baldo do Rio, as Defesas Civis do estado e do município usaram um drone para mapear as áreas mais atingidas pelas águas. Nenhum agente quis gravar entrevista.
Os moradores do Baldo estavam desolados, sem saber o que fazer após os estragos. Entre eles, Adriano Ramos, que tem 40 anos e é pescador. Ele sempre morou na localidade e, desde a primeira enchente, não conseguiu voltar para casa. Adriano perdeu tudo e tem três filhos.

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“Essa é a segunda cheia, mas na primeira eu já havia perdido tudo. Já não tenho mais o que falar. Da minha casa só é possível ver o telhado. Eu me sinto envergonhado. É a minha mãe quem está pagando o aluguel da minha casa, porque o prefeito prometeu um dinheiro e isso nunca saiu. Eu nunca vi isso. Eu perdi geladeira, cama e tudo dentro de casa. Vi tudo indo embora com as águas. Não sei o que fazer daqui para a frente. Não tenho dinheiro para pagar aluguel. Minha mãe que está pagando. Para onde eu vou?”, questionou.
Resistência
para sair
Segundo a Defesa Civil do município, cinco abrigos temporários foram instalados
em Goiana para receber os desalojados e desabrigados. Eles foram estruturados
em escolas municipais, onde recebem alimentação, atendimento médico,
assistência social e apoio psicológico.
Contudo, o auxiliar de serviços gerais Severino Ramos, de 40 anos, se negou a deixar a rua da Passarela, onde tem uma casa junto com a esposa, Andrelina Gomes, 63. Ele montou uma cabana provisória, do outro lado da rua, para se abrigar com ela.

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“Eu já perdi tudo uma vez,
quando fomos ao colégio [abrigo]. Fiquei doente e precisei de socorro dos
Bombeiros. Depois consegui recuperar algumas coisas. Agora nessa
cheia, perdi uma cama nova que custou R$ 2 mil. Fiz essa palhoça para
ficar com a mulher, já para não perder o resto das coisas, porque não
conseguimos levar nossos pertences para o abrigo. Vou esperar a água baixar,
mas peço um apoio para me reerguer e ver se o negócio melhora”, relatou ele.
“Eu
perdi colchão, cama, geladeira, fogão e documentos. Agora, estou pagando um
aluguel de R$ 300, mas não estou recebendo qualquer ajuda. Se for preciso, vou
passar por necessidades, mas vou pagar o aluguel para não voltar para a cheia
de novo. Quando estava chovendo, eu não estava em casa. Estava trabalhando,
fazendo biscate [trabalho informal, bico] para sobreviver. O prefeito veio
aqui, fez um cadastro nosso e disse que iria pagar um auxílio, mas, até agora,
nada. A situação fica como?”, pergunta o pescador João José da Silva Borges, de
50 anos. Ele saiu de casa desde a primeira enchente, porque perdeu tudo e até
agora não voltou.
Família
ilhada
A auxiliar de serviços gerais Joelma Domingos, de 34 anos, também mora na rua
da Passarela, em um primeiro andar de um imóvel, com o marido e três filhas
menores de idade. Para sair do local, é preciso utilizar uma canoa. As meninas
estão assustadas com o que veem e ela está sofrendo com dores na coluna, sem
conseguir trabalhar. Joelma mantém a esperança de que a fase difícil vai
passar.

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“Elas estão assustadas, mas eu sigo dizendo que isso vai passar e tudo vai voltar ao normal, em nome de Jesus. Eu moro aqui há quase seis anos e já vi algo parecido, no mês passado. Agora, vamos ter que correr atrás e batalhar para construir a vida novamente, porque as coisas só vêm através do nosso esforço. Eu estou doente, com problema na coluna e sem poder trabalhar. Só meu esposo está trabalhando para manter a casa”, declarou ela.
Cidade segue monitorando situação
Em nota, a Defesa Civil do município disse que “as equipes seguem monitorando o nível dos rios e canais, com atenção especial ao Rio Siriji, cujas águas, vindas de municípios vizinhos, podem intensificar as inundações nas próximas horas. A Prefeitura orienta os moradores de áreas de risco a permanecerem atentos aos alertas e, se necessário, procurarem locais seguros. A população pode buscar informações e apoio pelos canais oficiais da Prefeitura e da Defesa Civil municipal”.
Posicionamento do Governo de Pernambuco
Por meio de nota, a Secretaria de Defesa Social de Pernambuco (SDS) informou que diversos órgãos, como a Secretaria Executiva de Proteção e Defesa Civil do Estado (SEPDEC) e o Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco (CBMPE), mantêm atuação integrada nos municípios da Zona da Mata Norte atingidos pelas fortes chuvas registradas neste fim de semana, dando assistência às famílias afetadas, apoio às Defesas Civis municipais, distribuição de ajuda humanitária e ações de resgate em áreas alagadas.
“Como parte da resposta emergencial, o Governo de Pernambuco já encaminhou ajuda humanitária ao município de Timbaúba, com a entrega de 100 colchões, 50 kits de higiene, 200 lençóis, 75 garrafões de água mineral de cinco litros e 20 cestas básicas. Paralelamente, equipes da Defesa Civil estadual permanecem em campo realizando levantamentos de danos e prejuízos, prestando apoio técnico às Defesas Civis municipais e monitorando a necessidade de envio de novos materiais e assistência às populações atingidas”, frisou.
De acordo com a gestão estadual e já citado na matéria, Goiana concentra o maior número de desabrigados, com 481 pessoas acolhidas em abrigos municipais. Timbaúba tem 13 desabrigados e 1.578 desalojados. Macaparana registrou 29 desabrigados. Já Vicência contabiliza 60 desalojados e São Vicente Férrer, outros cinco. O secretário executivo de Proteção e Defesa Civil de Pernambuco, coronel Clóvis Ramalho, explicou os trabalhos do órgão.
"Nosso trabalho é permanente e realizado em conjunto com os municípios para garantir uma resposta rápida às ocorrências. Além do monitoramento contínuo, estamos realizando levantamentos técnicos e direcionando a assistência humanitária de acordo com as necessidades identificadas em cada localidade, sempre priorizando o atendimento às famílias afetadas", garantiu.
Bombeiros em serviço
O Corpo de Bombeiros Militar de Pernambuco afirma que trabalha nas ocorrências desde que elas se iniciaram, permanecendo mobilizado no atendimento dos chamados relacionados às chuvas. No centro de Timbaúba, foram resgatadas, através de um bote inflável, duas pessoas que estavam. Em Goiana, outra equipe retirou duas pessoas e uma cadela de uma residência atingida pela inundação, em uma operação realizada com o apoio do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e da Defesa Civil municipal.
Durante as ações, os bombeiros também orientaram moradores sobre a necessidade de evacuação das áreas de risco diante da elevação do nível da água, reforçando que a preservação da vida deve ser sempre a prioridade.
"O Corpo de Bombeiros segue em prontidão para atender qualquer ocorrência relacionada às chuvas. Nossas equipes permanecem preparadas para atuar em resgates, salvamentos e apoio às populações afetadas. Também reforçamos o alerta para que a população respeite as orientações das equipes e evite permanecer em áreas sujeitas a alagamentos ou deslizamentos", afirmou o comandante-geral da corporação, coronel Eduardo Araripe.
FONTE: FOLHA PE.