Publicada em 14/07/2026 às 11h12.
Suspeita de envenenar artesã com mercúrio não lembra de nada e faz uso de medicações, diz defesa
Advogada Ana Maristela Trajano disse que a cliente, de 58 anos, possui histórico de transtornos psiquiátricos, como pânico, retardo mental e quadro depressivo

Foto: Divulgação.     


 A defesa da mulher apontada como suspeita de envenenar com mercúrio a artesã Denny Cardoso afirmou que a cliente não lembra do ocorrido, faz tratamento psiquiátrico e que a investigação ainda não reuniu provas suficientes para responsabilizá-la.

 

Em entrevista à Folha de Pernambuco nesta terça-feira (14), a advogada Ana Maristela Trajano disse que a cliente, de 58 anos, possui histórico de transtornos psiquiátricos, como pânico, retardo mental e quadro depressivo.


"Ela diz que não se recorda de nada daquele dia. Não se recorda nem que foi na delegacia. Está sendo acompanhada para ver se será necessária uma nova internação ou não", apontou a advogada.

Segundo Ana Maristela Trajano, a mulher é acompanhada pelo serviço de psiquiatria do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), no Recife, há anos. Ela já era paciente da unidade de saúde quando iniciou como aluna de artesanato no anexo do local. 

A mulher foi flagrada duas vezes abrindo a garrafa da vítima e colocando alguma substância. Após ter ação filmada em vídeo, ela foi parar na delegacia, onde foi encontrado um pó no interior de sua bolsa.


A defesa afirmou que, após ser levada para a delegacia, todos os pertences da sua cliente foram revistados e a mulher, ouvida. "Ela foi levada ao banheiro com uma policial mulher, foi toda revistada, tudo dela foi apreendido. Ela assinou o documento e está aguardando até hoje. Nunca mais foi chamada", relatou, afirmou que o pó localizado na bolsa também foi apreendido.

De acordo com a advogada, havia uma desavença entre as envolvidas motivada por "namorado", mas a relação não foi detalhada. Após o episódio gravado em junho de 2025, onde a mulher aparece abrindo uma garrafa e colocando algo dentro, a suspeita passou cerca de três meses internada devido ao quadro psiquiátrico. A defesa afirma ainda que a mulher já havia passado por internação anterior, de aproximadamente 15 dias.

"Ela não se recorda nem que foi internada, não pode ficar sozinha de jeito nenhum. Está medicada e, no momento, está estável, mas quando entra em crise, fica totalmente desnorteada, não lembra e nem reconhece", afirmou a advogada.


Alegações


A advogada afirmou que o inquérito ainda não comprovou que a garrafa pertencia à vítima e nem que a substância colocada pela cliente era mercúrio.

"A vítima relata que quando bebeu a água, sentiu umas bolinhas. O material apreendido com a minha cliente era em pó, é tudo muito incoerente. Por isso que o delegado não finalizou esse inquérito ainda”, declarou Ana Maristela.

A advogada acrescentou que todo o material encontrado com a mulher foi apreendido pela polícia e permanece sob análise, mas que, até o momento, não houve divulgação de um laudo pericial sobre qual substância foi encontrada com a sua cliente.

"Não foi provado de quem era a garrafa, não foi provado o que foi colocado na garrafa até o momento. O laudo que se tem é o laudo que a vítima tinha mercúrio no corpo, mas esse mercúrio proveio de onde? Não se sabe, não se pode acusar, dizer que foi minha cliente que colocou essa substância, até porque ela [Denny] toma uma quantidade exagerada de medicação, porque tem fibromialgia desde 2018. Por isso que o delegado quer saber se foi da intoxicação ou se é da própria doença dela essas limitações", alegou a advogada.

Questionada pela reportagem se a mulher suspeita teria acesso a mercúrio ou substâncias do tipo, a defesa negou. "De forma alguma, até porque ela tem certas limitações, não sai de casa sozinha por causa dos transtornos mentais".

Ana Maristela defende que a investigação seja concluída antes de qualquer acusação formal. "Eu espero que seja feita realmente a justiça. Se ela fez, ela vai pagar pelo que fez, porém, tem que ser provado primeiro. Até que se prove o contrário, todo mundo é inocente", disse a advogada.


"Eu não me reconheço",


Em entrevista à Folha de Pernambuco nessa segunda-feira (13), a artesã Denny Cardoso afirmou que, devido ao atual quadro de saúde, não se reconhece mais.

"Perdi minha autonomia de locomoção, de me alimentar sozinha, pegar minha neta no colo. Eu não consigo preparar um alimento, lavar os pratos, varrer a casa. Coisas básicas. Eu não consigo parar em pé, eu preciso de um ponto fixo, seja uma pessoa ou uma parede. Não tenho a autonomia que tinha antes. Perdi meu direito de ir e vir. Estou limitada porque quando preciso fazer as coisas não tenho condições físicas de fazer tanto pela rigidez muscular quanto pelas dores", completou.

A artesã conhecia a mulher suspeita pela atuação de mais de oito anos no projeto Arte na Medicina com a oferta de aulas de artesanato para pacientes e familiares assistidas pelo Grupo de Ajuda à Criança Carente com Câncer (GAC).


"Eu não tenho nenhum tipo de sentimento por ela. Eu não consigo ter nenhum tipo de sentimento. Só não quero que se torne algo impune. Só quero justiça para que não fique por nada. Que o que ela fez, ela pague. Eu não merecia isso, eu não mereço isso", afirmou.


Relembre o caso


Uma artesã denuncia ter sido vítima de envenenamento por mercúrio enquanto trabalhava em projeto social em um anexo do Hospital Universitário Oswaldo Cruz (Huoc), no bairro de Santo Amaro, área central do Recife, onde atuava como professora voluntária de artesanato.


A mulher afirma que esferas de mercúrio de cor prateada eram colocadas dentro de sua garrafa de água por uma aluna do projeto, flagrada em vídeo.

Denny Cardoso, de 43 anos, que registrou Boletim de Ocorrência (B.O.) sobre o caso em junho de 2025, aguarda a avaliação neurológica pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para laudo conclusivo das sequelas e avanço das investigações.



Foto: Divulgação. 


 Nesta segunda-feira (13), a defesa informou à reportagem da Folha de Pernambuco que recebeu a confirmação de agendamento da consulta, marcada para esta sexta-feira (17), em hospital da rede pública.


Na denúncia, a artesã afirma que usou o próprio celular para gravar a ação e conseguiu captar por duas vezes o momento em que a mulher suspeita abre a garrafa, retira um envelope da cintura, adiciona o conteúdo dentro da água e agita o recipiente.



Foto: Divulgação.   


 À época, Denny alegou sentir efeitos colaterais que estariam associados à substância, como tontura, vista ofuscada e queda de cabelo.


A ingestão do metal tóxico afetou o estado de saúde da vítima, que perdeu a força das mãos e, agora, depende de muleta para se locomover.


“Ela está com a mobilidade limitada, perdendo o movimento das mãos", afirmou o advogado da vítima, Wilgberto Reis.


O B.O. registrado afirma que a Polícia Militar foi acionada e que a suspeita negou o ato. Uma agente feminina chegou a realizar revista nela e encontrou resíduos parecidos com pó no fundo de uma bolsa. A suspeita foi encaminhada à Central de Plantões do Recife (Ceplanc), no bairro de Campo Grande, na Zona Norte da capital pernambucana.


Segundo o advogado da defesa, a suspeita não foi presa e a análise do material foi solicitada. A garrafa da artesã foi encaminhada à perícia química do Centro Regional de Ciências Nucleares do Nordeste (CRCN-NE), que emitiu laudo positivo para mercúrio.

“Ela desconfia que passou meses ingerindo e teve esse agravamento de saúde sem saber o que era. Não havia desentendimento, mas Denny reparou que a pessoa estava com uma certa dureza ou implicância com ela nos últimos tempos”, relatou Wilgberto Reis.


No documento, a perita responsável pela conclusão destaca que o mercúrio metálico é um metal pesado e considerado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como uma das dez substâncias de maior preocupação para a saúde pública por apresentar, na forma líquida, toxicidade.



Foto: Divulgação. 


 Denny atuou por mais de oito anos no projeto Arte na Medicina com a oferta de aulas de artesanato para pacientes e familiares do Hospital Oswaldo Cruz, assistidas pelo Grupo de Ajuda à Criança Carente com Câncer (GAC). O serviço era realizado em anexo da unidade de saúde, local conhecido como Castelinho. 


De acordo com o advogado, a mulher suspeita tinha um filho em tratamento no hospital e era aluna do projeto há aproximadamente três anos. Atualmente, a investigação policial encontra-se paralisada, pois depende de avaliação neurocirúrgica solicitada em janeiro deste ano para confirmar as sequelas.

 

“Já foram solicitados laudos complementares. Agora, por último, pediram uma avaliação neurocirúrgica com prioridade para entender quais são as sequelas neurológicas. O documento justifica que Denny apresenta instabilidade postural, queimação nas mãos, sensação de choque nos membros superiores ao se movimentar e lateralizar o pescoço. A médica identificou sintomas neurológicos importantes e alteração na coluna cervical com compressão da medula e das raízes nervosas”, afirmou o advogado.


Wilgberto Reis relata que a vítima enfrentou dificuldades para conseguir atendimento por meio do SUS e chegou a ajuizar uma ação contra o estado de Pernambuco para realizar a atendimento com urgência, marcação que foi confirmada nesta segunda (13). A defesa também busca agilizar o processo judicial e garantir que a mulher suspeita seja responsabilizada por tentativa de homicídio qualificado.


"Estamos sustentando que ela responda pelos seus atos perante ao Tribunal do Júri no momento correto, depois do fim das investigações, porque é nitidamente uma tentativa de homicídio sem motivo, inclusive".

Vaquinha online


Agora, Denny Cardoso mobiliza uma vaquinha virtual nas redes sociais para custear fisioterapia motora, consultas com psicólogo, medicamentos e deslocamentos relacionados ao tratamento.


O objetivo é arrecadar R$ 15 mil. Doações podem ser feitas pela internet ou por meio do Pix usando as chaves 6208003@vakinha.com.br ou 81996609907 (celular).



FONTE: FOLHA PE.








            






               






                   




               

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