
Foto: Divulgação.
“Eu
procurava proteção, não projeção.” Foi assim que a advogada Isabella Pequeno
explicou por que decidiu tornar pública sua identidade e relatar os episódios
que, segundo ela, envolveram uma tentativa de extorsão atribuída ao deputado
estadual eleito Emerson Freitas (MDB).
Em
um vídeo divulgado na manhã desta quarta-feira (4), nas redes sociais, ela
contou que denunciou o influenciador à Polícia Civil de Pernambuco (PCPE) em
2023, após ele se apresentar como policial militar e afirmar que havia
descoberto um plano para assassiná-la.
Na
época, Isabella enfrentava as consequências de um relacionamento marcado por
violência doméstica e estava protegida por medidas protetivas de urgência.
Segundo a advogada, Emerson apareceu durante uma ocorrência envolvendo seu
ex-companheiro, no Recife, usando roupas pretas, distintivo e armado.
Ele
teria se apresentado como sargento da Polícia Militar e afirmado ter ligação
com a Casa Civil, além de ser homem de confiança da governadora Raquel Lyra
(PSD) e da vice-governadora Priscila Krause (PSD).
No
dia seguinte, conforme o relato, o influenciador entrou em contato e disse que
a morte dela havia sido encomendada por R$ 90 mil. Posteriormente, teria
aparecido na academia de crossfit frequentada pela advogada, na região da
Imbiribeira, acompanhado de outra pessoa.
Isabella
afirma que, durante a abordagem, Emerson utilizou informações pessoais e
patrimoniais de seus familiares para reforçar as ameaças e demonstrar suposto
acesso a dados sigilosos.
“Ele
botava mensagem, informações da minha família, dados patrimoniais que eu não
tinha noção que alguém pudesse ter. Falava sobre valores e dizia ter acesso a
informações que me deixaram extremamente assustada. Eu já era uma mulher
ameaçada por violência doméstica. Naquele momento, eu acreditava estar diante
de um policial”, relatou.
A
advogada afirma que gravou as conversas, que somam 37 minutos, e apresentou o
material às autoridades. Segundo ela, durante o episódio, também foi ameaçada
com referências à segurança do filho.
“São
37 minutos gravados de terror. Alguém que se aproveitou da minha
vulnerabilidade chegou a dizer: ‘Você não tem medo do seu filho morrer?’”,
declarou.
Denúncia
foi feita antes das eleições
Isabella
afirma que procurou a Polícia Civil ainda em 2023, antes de Emerson disputar as
eleições deste ano. O caso foi investigado pelo Grupo de Operações Especiais
(GOE), da Polícia Civil. A investigação ganhou repercussão após reportagem do
portal Marco Zero Conteúdo, que divulgou gravações e informações do procedimento.
No
início de 2026, Emerson passou a responder a uma ação penal relacionada ao
episódio, com acusações que incluem estelionato, falsidade ideológica e uso de
documento falso.
Durante
o pronunciamento, a advogada ressaltou que a história de que sua morte havia
sido encomendada não era verdadeira, mas que o medo provocado pela situação
teve consequências concretas em sua vida.
“A
história de que a minha morte havia sido encomendada era falsa. Mas o medo que
eu senti foi real. O sofrimento foi real, o adoecimento foi real. As
consequências na minha vida foram reais até hoje”, afirmou a advogada.
Ela
contou que decidiu deixar Pernambuco e que voltou a sentir medo após a
repercussão dos acontecimentos recentes envolvendo o deputado eleito. Segundo
Isabella, recebeu mensagens ofensivas e ameaças depois que o caso voltou a ser
noticiado.
A
advogada explicou que decidiu mostrar o rosto para que sua história não
continuasse sendo apresentada apenas de maneira superficial. Também negou
qualquer motivação político-partidária e afirmou que não pretende antecipar uma
condenação.
“Eu
não estou aqui para antecipar uma condenação. Isso cabe à Justiça, com todo o
direito de defesa e o devido processo legal. Eu estou aqui para contar minha
história”, disse Isabella.
Nova
ação penal e prisão preventiva
Além
do processo relacionado à denúncia de Isabella, Emerson Freitas passou a
responder a uma nova ação penal por suspeita de extorsão. Em 29 de outubro de
2026, a 15ª Vara Criminal da Capital recebeu a denúncia apresentada pelo
Ministério Público de Pernambuco (MPPE) e decretou a prisão preventiva do
deputado eleito. A decisão também alcançou Rizelly da Silva Santos, investigada
no mesmo procedimento.
Após
a expedição dos mandados, a defesa de Emerson, representada pelo advogado Weryd
Simões, questionou a investigação e alegou irregularidades. Em 30 de outubro, o
desembargador Demócrito Reinaldo Filho concedeu uma liminar que garantiu à
defesa acesso aos documentos já registrados no processo, incluindo a decisão
que fundamentou a prisão. Na ocasião, a ordem de prisão continuava válida.
Na
terça-feira (3), o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) concedeu
parcialmente um pedido de habeas corpus e determinou a substituição da prisão
preventiva por medidas cautelares. Entre as condições estabelecidas estão o uso
de tornozeleira eletrônica, o comparecimento mensal à Justiça e a proibição de
contato com vítimas e testemunhas. A decisão também estabeleceu a apresentação
voluntária do acusado à Justiça.
A mudança foi anunciada pelo próprio Emerson em um vídeo nas redes sociais, ao lado do advogado. A defesa informou que pretende estruturar sua argumentação após ter acesso integral aos autos, que possuem cerca de 700 páginas, segundo Weryd Simões.
Eleito com mais de 49 mil votos
Emerson Freitas foi eleito
deputado estadual pelo MDB em sua primeira disputa eleitoral, com 49.254 votos.
A posse na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) está prevista para 1º
de fevereiro de 2027.
Ao encerrar o
pronunciamento, Isabella afirmou que deseja continuar exercendo a advocacia em
Pernambuco e viver sem medo por ter procurado as autoridades.
“Não é a ausência de medo que me faz falar. É a consciência de que o silêncio também teve um preço muito alto na minha vida. Hoje eu escolho mostrar meu rosto porque quero continuar exercendo minha profissão, retornando ao meu estado e vivendo com a segurança e a liberdade que toda mulher merece”, concluiu.
FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO.