Publicada em 26/09/2020 às 09h52.
Profissionais de saúde sentem o impacto na saúde mental diante da luta contra a Covid-19
Transtornos causados pela pressão e pelo estresse se manifestam no corpo e, sobretudo, na mente em quem está na linha de frente.

 Foto: Ronaldo Schemidt/AFP


A situação de crise aliada à sobrecarga de trabalho afetou diretamente os profissionais de saúde da linha de frente no combate ao novo coronavírus. Indispensáveis, acabaram se tornando o grupo mais vulnerável às consequências emocionais e psicológicas da pandemia. Falta de recursos e equipes reduzidas foram outros fatores que, em muitos casos, contribuíram para o adoecimento mental de técnicos de enfermagem, enfermeiros, fisioterapeutas, médicos, entre outros. Porém, muitos não sabem que apesar de o momento mais crítico ter passado ainda existe a possibilidade destes profissionais apresentarem algum transtorno.


Muitas vezes a pessoa não desenvolve o quadro no momento da crise, segundo a professora de psiquiatria da Universidade de Pernambuco (UPE) Milena França. “Alguns vão sentir o peso do estresse futuramente. Pode acontecer em um espaço de pelo menos seis meses. É o que se chama neuroplasticidade cerebral”, diz. Trata-se da capacidade de o cérebro se adaptar a mudanças por meio do sistema nervoso. “Essa pandemia se assemelha a um estresse de guerra, a um desastre natural, um sequestro, um estupro, principalmente para aqueles que enfrentaram de frente. Isso tudo é fator para abertura de transtornos mentais”, acrescenta.


Quem encarou rotinas exaustivas foi a enfermeira Glauce Barreto, 39 anos. Ela atuou em uma Unidade de Tratamento Intensivo (UTI), com capacidade para atender 100 pacientes, em um hospital de campanha no Recife. Glauce conta que a sensação de impotência ao testemunhar inúmeras mortes pela Covid-19 está entre as piores já sentida. “Começamos a ter cerca de dez óbitos em uma hora. Profissional nenhum nunca se deparou com tantas mortes em minutos. A UTI estava calma e, de repente, vários tinham parada cardíaca ao mesmo tempo. Quando não conseguíamos trazer o paciente de volta ficávamos muito mal”, recorda.


A enfermeira confessa que era recorrente o sentimento de culpa entre os profissionais diante de tantas perdas. “Foi um momento desesperador. Muitos colegas começaram a adoecer por conta disso”, diz, acrescentando que também era grande o medo de contrair o coronavírus e transmitir para os familiares. “À noite juntava o cansaço físico com o psicológico, e eu não consegui relaxar. Foram muitas noites em casa e no trabalho sem conseguir dormir. Foram algumas noites de terror devido ao barulho dos aparelhos no ouvido, dos profissionais chamando para acudir um paciente em parada, era muita adrenalina”, lembra Glauce.


De acordo com a professora Milena França, ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático estão entre os principais diagnósticos. “A gente tem que entender que ansiedade e medo são fisiológicos. O que não pode acontecer é o excesso, a incapacitação, a pessoa ficar paralisada. Quando a gente começa a observar que estes sentimentos estão refletindo nas outras atividades sociais é o momento de buscar ajuda”, orienta. França ainda faz um alerta sobre a psicofobia. “É preciso desmistificar esse preconceito com os transtornos mentais porque isso dificulta a busca pelo tratamento”, diz.


A psicóloga e conselheira do Conselho Regional de Psicologia de Pernambuco (CRPPE), Daniele Rabello, afirma que em alguns casos a ansiedade se manifesta com o adoecimento do corpo. “Há relatos de sensações insuportáveis, desde falta de ar a sintomas como dor de barriga, enjoo, vômito, uma agonia que não sabe explicar muito bem. Como vai se tornando insuportável a pessoa percebe que tem algo diferente e busca ajuda profissional”, comenta, acrescentando que ninguém vai sair ileso da pandemia. “A gente sente alguma coisa. Uns adoecem outros não. Mas sentir todo mundo vai sentir”, avalia.


Alternativas


Antes da pandemia a técnica de enfermagem Lenir Tavares, 44, já fazia terapia, mas ela conta que a necessidade aumentou nos últimos meses. Lenir afirma que a família foi fundamental para lidar com o estresse do trabalho. Ela fez parte da equipe da UTI de Covid-19 do Hospital Agamenon Magalhães (HAM), na Zona Norte da Capital. “Eu me sinto cansada até hoje porque o grau de exigência era muito alto. A cada dia era uma situação nova”, lembra. Segundo Lenir um dos principais problemas enfrentados foi a insônia. “Foi sofrido, angustiante, voltava para casa com medo, mas foi prazeroso por poder ajudar outras pessoas”, diz.


Hidratar bem o corpo, praticar exercício físico e técnicas de meditação estão entre as recomendações dos especialistas para prevenir ou amenizar o estresse do cotidiano. Cuidar da higiene do sono e criar rotina com hora de trabalho e de lazer também é fundamental. “A gente precisa voltar a sentir prazer de alguma forma. Sair dessa vivência voltada apenas para a pandemia”, orienta a psicóloga Daniele Rabello. A especialista diz ainda que é preciso manter uma alimentação mais equilibrada. “Juntar atividades para a mente e para o corpo, trazendo o prazer junto com o cuidado”, acrescenta.

 

De acordo com a conselheira do CRPPE, nas unidades hospitalares é importante ter espaços de acolhimento e fala sobre sentimentos. “Me refiro a grupos entre os próprios trabalhadores onde possa haver esse espaço de compartilhamento, crescimento, libertação da dor que se está vivenciando nesse momento”, diz. Daniele Rabello afirma que é preciso deixar de lado alguns estigmas sobre a saúde mental e falar mais abertamente sobre o assunto. “Não se deve negligenciar o que está sentindo, pois no contexto de pandemia que estamos inseridos é normal e até mesmo esperado algumas reações emocionais”, fala.


Teleacolhimento 


Preocupada com a saúde mental do time que está trabalhando na linha de frente do combate ao novo coronavírus, a Prefeitura do Recife lançou, no começo de junho, o “Acolhe Profissional”. O canal funciona como um teleatendimento onde os profissionais da rede municipal recebem assistência para questões psicológicas por telefone. Para solicitar o atendimento, o profissional deve enviar e-mail para o endereço acolheprofissionalrecife@recife.pe.gov.br. Desde que foi criado o serviço já foi procurado por 39 profissionais. Desses, 20 foram encaminhados para psicoterapia junto à Sociedade Psicanalítica do Recife (SPR).


Uma das coordenadoras do “Acolhe Profissional”, a psicóloga Angélica Oliveira, conta que a demanda principal que chega é de ansiedade e medo de adoecer e levar o vírus para a família. “A maioria dos profissionais que procura o teleacolhimento está em algum grau de sofrimento relacionado principalmente a Covid-19. Existe um perfil de pessoas que já eram adoecidas e faziam tratamento psiquiátrico antes e há aqueles que iniciaram esse processo agora com a pressão e a tensão da pandemia”, afirma. Para a psicóloga, o teleacolhimento é um serviço que tende a continuar após a pandemia pela resolutividade e qualidade de atenção ofertadas. 


Entre as dicas dadas por Angélica Oliveira para os profissionais de saúde está o simples ato de beber água, pois além da importância de manter o corpo hidratado é um momento de pausa para acalmar a mente. “É importante perceber o limite. Se por acaso passar por situação inesperada ou perceber que vai liberar um sofrimento a mais do que está acostumado procure um cantinho do hospital para dar uma apaziguada. Respirar fundo para que você consiga voltar e continuar a trabalhar”, orienta. Ela também aconselha a sempre que possível procurar o serviço de acolhimento nas unidades de saúde.


FONTE: FOLHAPE.

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