Publicada em 16/10/2021 às 10h52.
Conteúdos violentos: como falar com crianças e adolescentes sobre séries como Round 6
Cenas de sexo e violência podem impactar desenvolvimento psíquico e levar crianças a reproduzir conteúdos de filmes e séries.


Round 6 / Reprodução do G1.


O avanço tecnológico e as plataformas de streaming popularizaram o consumo de produções audiovisuais do mundo todo, mas também possibilitaram o consumo de séries e filmes com conteúdo violento por crianças e adolescentes.


Recentemente, a escola Aladdin, no Rio de Janeiro, por exemplo, chegou a enviar um comunicado a pais e responsáveis alertando sobre conteúdos de violência, sexo e suicídio apresentados na série que é a febre do momento, "Round 6", da Netflix. A série tem classificação indicativa de 16 anos.


No comunicado, ao qual o g1 teve acesso, a escola diz que se preocupa com a "facilidade com que as crianças acessam esse material" e reforça que as produções possuem “restrição de visualização por classificação etária, uma ferramenta preciosa para que nossas crianças acessem somente o conteúdo apropriado à sua idade".


"Sabemos que é responsabilidade da família decidir o que é melhor para suas crianças, mas enquanto educadores temos o dever de alertar e honrar o compromisso com a educação" - Jardim Escola Aladdin.


O problema não é recente. Séries como 'The Walking Dead', não indicada para menores de 16 anos, e 'Sobrenatural', não indicada para menores de 14, já foram muito populares entre crianças mais novas. No entanto, psicólogos e educadores reforçam a importância de haver um controle, ou, no mínimo, orientação sobre o acesso a conteúdos sensíveis por crianças.


Patricia Bignardi, coordenadora pedagógica da Escola Tarsila do Amaral, em São Paulo, diz que a responsabilidade de verificar o que as crianças consomem em seu tempo livre é principalmente dos pais, mas que a escola tem o dever de orientá-los tanto quanto aos alunos sobre a forma de interpretar e lidar com conteúdos inadequados.


"A escola tem um papel fundamental não só de conversar com as crianças, mas também de alertar as famílias sobre os riscos e consequências de expor a criança a cenas de violência e sexo, por exemplo. Porque, por mais que ela não entenda exatamente do que se trata, vai notar que não é algo presente no seu dia a dia e pode querer reproduzir, mesmo que por brincadeira, com os colegas."


Segundo ela, o que deve ser feito caso isso aconteça é conversar com a criança para explicar que se trata de uma ficção e que não é algo que deva ser reproduzido na vida real.


Na outra ponta, os pais também precisam ficar alertas para garantir que os filhos não acessem tais conteúdos e que estejam preparados para elucidar questões que podem não ser devidamente absorvidas pelas crianças.


A psicóloga Iolete Ribeiro defende que o respeito à classificação dos conteúdos aos quais crianças e adolescentes têm acesso é indispensável. "O desenvolvimento psíquico de criança e adolescente difere em vários domínios psicológicos do desenvolvimento adulto. Então, o modo de pensar e de interpretar é característico e vai passando por transformações."


Ela explica que a autonomia intelectual para distinguir o que é realidade e o que é fantasia está em formação em crianças de menos de 12 anos. Por isso, elas ainda não conseguem analisar o efeito das escolhas que fazem, nem mesmo têm capacidade para interpretar esses conteúdos de modo que não tragam prejuízos para seu processo de desenvolvimento.


Iolete, no entanto, não defende a responsabilização de pais e professores e opina que é o estado quem deve regular o acesso e a classificação dos conteúdos.


Confira outras dicas dos profissionais ouvidos pelo g1.


  • Evite conteúdos inadequados

Não assista conteúdos inadequados a crianças na presença delas. Dê preferência a conteúdos infantis quando estiverem assistindo juntos. Isso mostra que o conteúdo que elas assistem é divertido e interessante e não gera curiosidade sobre assuntos inadequados.


  • Crie um perfil infantil

Os serviços de streaming oferecem perfis infantis com filtro de conteúdos. Crie uma conta para seu filho e mostre o tanto de conteúdo legal que ele tem acesso. Explique que ele pode assistir o que estiver ali e, caso queira ver algo de outro perfil, é preciso pedir permissão antes. Alguns serviços de streaming oferecem a possibilidade de criar senhas para restringir o acesso a perfis --o que impede crianças de abrir conteúdos dos pais, por exemplo.


A carioca Kathlen da Cunha é mãe de Saulo, de 4 anos, e toma os cuidados necessários para que o filho só assista produções próprias para sua idade. "Ele tem um perfil infantil, então conto com a configuração de segurança que os streamings proporcionam. De minha parte, eu programo, administro e supervisiono pela TV e também assisto junto."


  • Confira o que a criança está assistindo

Também é possível acessar o histórico do aplicativo e verificar o que foi acessado anteriormente. Faça isso e confira o que a criança assiste quando está sozinha.


  • Converse

Se a curiosidade surgir, converse com a criança sobre os conteúdos inadequados. Explique, sem detalhes, o assunto em questão. Por exemplo, diga que agressão é crime e não deve ser cometida, aceita ou reproduzida. Explique que o que ela viu é uma ficção e não deve ser feito na vida real. E se a curiosidade persistir, diga que ela pode sempre perguntar para um adulto de confiança.


  • Guia da classificação indicativa

No Brasil, as produções audiovisuais veiculadas na TV, em cinemas, distribuídos digitalmente ou por outros meios de comunicação precisam ser devidamente classificadas de acordo com a faixa etária indicada. A orientação é do Ministério da Justiça e está descrita no guia prático de classificação indicativa.


As classificações podem ser:


  • Livre para todos os públicos
  • Não recomendado para menores de 10 anos
  • Não recomendado para menores de 12 anos
  • Não recomendado para menores de 14 anos
  • Não recomendado para menores de 16 anos
  • Não recomendado para menores de 18 anos

Na TV aberta, por exemplo, cenas de sexo, consumo ou alusão a drogas ou violência só podem ser veiculadas a partir de horários específicos e sempre deve apresentar a classificação indicativa. O objetivo é informar aos pais e responsáveis se o que está sendo exibido é ou não recomendado para crianças e adolescentes.


Conteúdos disponibilizados por serviços de distribuição ou de streaming também precisam ser classificados. Mas, como nestes casos o horário de exibição não é controlado, as profissionais ouvidos pelo g1 reforçam a necessidade de um controle parental para evitar o consumo indiscriminado de produções não recomendadas.


Apesar disso, o consumo de conteúdos inadequados não é proibido, desde que seja permitido por um responsável legal que assuma os riscos da exposição não indicada.


FONTE: G1.



 

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