
Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil / Reprodução: Diário de Pernambuco.
Nesta semana, o Ministério da Saúde anunciou que vai
prorrogar a campanha de vacinação contra a poliomielite até o dia 30 de
setembro. A medida, segundo a pasta, visa aumentar a cobertura vacinal e a
adesão da população à vacinação. Até a última terça-feira (6), o ministério
computava que, durante a campanha, apenas 35% das crianças na faixa etária
entre 1 e 5 anos de idade haviam sido imunizadas contra a poliomielite. A meta
da campanha é alcançar uma cobertura igual ou maior que 95% neste público.
A baixa cobertura vacinal observada no Brasil contra a
doença nos últimos anos tem preocupado especialistas, que alertam que esse
cenário pode provocar a reintrodução do vírus no país. “Aqui no país, nós temos
um risco de reintrodução [do vírus] com esse cenário de baixa cobertura
vacinal”, falou Caroline Gava, assessora técnica do Departamento de Imunização
e Doenças Transmissíveis do Programa Nacional de Imunizações.
“As últimas campanhas exclusivas [para a pólio] foram em
2018 e em 2020, onde já não alcançamos boas metas de cobertura vacinal. E hoje
ela está muito aquém do que a gente desejaria”, acrescentou ela. Caroline
palestrou hoje (8) em uma mesa que discutiu a situação da poliomielite no
Brasil durante a XXIV Jornada Nacional de Imunizações (SBIm 2022), evento que
acontece até sábado (10) no Centro de Convenções Frei Caneca, na capital
paulista.
A poliomielite, que causa paralisia infantil e pode ser
fatal, chegou a ser uma das doenças mais temidas no mundo. Mas, com a
vacinação, o Brasil deixou de apresentar casos da doença desde 1989, tendo
recebido, em 1994, um certificado de eliminação da doença. No entanto, com a
baixa cobertura vacinal e problemas relacionados à vigilância epidemiológica e
condições sociais, o Brasil voltou a figurar como um país de grande potencial
para a volta da doença.
“Em uma avaliação de risco feito nas Américas e no Caribe
pela Opas [Organização Pan-Americana de Saúde], considerando variáveis como
cobertura vacinal, vigilância epidemiológica e outros determinantes de saúde, o
Brasil aparece em segundo lugar, como de altíssimo risco para a reintrodução da
pólio, só antecedido pelo Haiti”, disse a infectologista Luiza Helena Falleiros
Arlant, que também participou da mesa, mas à distância. Luiza Helena integra o
Núcleo Assessor Permanente da Sociedade Latinoamericana de Infectologia
Pediátrica (Slipe).
Mapa vermelho
Durante sua palestra, Caroline apresentou um mapa do
Brasil quase inteiramente pintado de vermelho. A cor vermelha indica o alto
risco dos municípios do país para a reintrodução do vírus, levando em consideração
não somente a cobertura vacinal, como também a vigilância epidemiológica e
indicadores sociodemográficos. Nessa situação, encontravam-se 58,9% dos
municípios brasileiros. O mapa, com dados referentes a 2021, apresenta três
variações de cores além do vermelho: o laranja representa risco alto (situação
de 25,6% dos municípios); o amarelo, risco médio (13,5%); e o verde, risco
baixo (1,8%).
“Esse é um mapa que assusta. É um mapa da nossa realidade
em relação ao risco para a poliomielite no país. Temos 84% dos municípios do
país que registram risco alto ou risco muito alto para a reintrodução da pólio.
Apenas 100 municípios, ao final de 2021, apresentaram risco baixo”, explicou
Caroline.
A infectologista Luiza Helena também destacou a cor do
mapa. “Nosso país está praticamente todo em vermelho, um vermelho muito
intenso, com muito poucos lugares com risco médio. Não é a toa que vemos uma
cobertura vacinal que, em 2021, não chegou a 70% no Brasil como um todo. O
estado que se saiu melhor foi Santa Catarina, com 83%, mas longe de alcançar o
proposto que é de 95% de cobertura vacinal. E há cifras de muita preocupação,
como de apenas 44% no Amapá. Isso tudo é muito preocupante”, acrescentou ela.
Desde 2015, quando conseguiu obter uma cobertura vacinal
de 98,3%, o Brasil não alcança mais a meta de vacinação para a doença
[estabelecida em 95%]. Em 2020, ela somou apenas 76,2%. E, no ano passado,
69,9%.
Lembrando que, com o sarampo, a história não foi
diferente. O Brasil chegou a receber o certificado de eliminação do sarampo em
2016. Mas em 2019, também com queda vacinal para a doença, o país perdeu esse
reconhecimento após não conseguir controlar um surto, que se espalhou por
diversos estados.
A poliomielite
A poliomielite ou pólio é uma doença contagiosa aguda
causada por um vírus que vive no intestino, chamado poliovírus, que pode
infectar crianças e adultos por meio do contato direto com fezes ou com
secreções eliminadas pela boca das pessoas infectadas e provocar ou não
paralisia. Nos casos graves, em que acontecem as paralisias musculares, os
membros inferiores são os mais atingidos. A falta de saneamento, as más
condições habitacionais e a higiene pessoal precária constituem fatores que
favorecem a transmissão do poliovírus.
A doença não tem cura. “A poliomielite provoca uma
paralisia irreversível nos membros inferiores. E quando grave, ela pode
provocar também uma paralisia dos músculos respiratórios. Temos uma taxa de
letalidade, que é a morte pela doença, bastante alta”, disse Caroline, em entrevista
à Agência Brasil.
A única forma de prevenção possível para a doença é a vacinação. “Os pais devem sempre deve estar olhando a caderneta de vacinação [dos filhos], que é assinalada, indicando quando ele deve retornar à unidade de saúde”, falou Caroline. “Lembrando que a vacina pode ser dada em qualquer sala [do país], não precisa ser na sua unidade de referência. Então, se eu estiver viajando, mas estiver na hora ou no dia da vacinação, com a documentação da criança eu conseguirei vaciná-la em qualquer unidade de saúde. E se eu atrasei ou se eu perdi a data, posso voltar a qualquer momento na unidade de saúde para executar essa vacinação e deixar o calendário vacinal da minha criança em dia”, disse ela.
FONTE: DIÁRIO DE PERNAMBUCO.